13 de outubro de 2014

Out Of Time – O disco que abriu as portas para o rock alternativo

Eu estava voltando da escola no início dos anos 90. No caminho ouvi uma música que estava tocando em um som de alguma loja e esta canção mexeu bastante comigo, que na época estava com uns 10 anos de idade. Aquela melodia forte e melancólica me acertou em cheio e anos depois fui descobrir que esta canção era “Losing my religion” do R.E.M. Não demorou muito para se transformar em uma das minhas bandas preferidas.


Out Of Time era o sétimo disco de estúdio da banda e o segundo por uma grande gravadora, a Warner. O disco anterior, Green de 1988 tinha feito muito sucesso nos Estados Unidos, mas a banda ainda não tinha estourado no resto do mundo. Lançado em 11 de março de 1991, Out Of Time foi o disco de maior sucesso da carreira do R.E.M. vendendo mais de dez milhões de cópias.

Neste trabalho o grupo se afastava um pouco do rock e fazia um disco com uma sonoridade mais trabalhada, abusando de sons de piano, bandolim e arranjo de cordas. Segundo o vocalista Michael Stipe, este álbum não era um disco de rock n´roll e sim sobre memória, tempo e amor. Isto fica mais evidente no clima e nas letras do álbum. Produzido por Scott Litt e pela banda, mostra um R.E.M mais maduro e evoluindo bastante musicalmente. 

A música de abertura, “Radio song” critica as rádios da época e baixa qualidade das músicas que elas tocavam (imaginem as de hoje então). A banda resolveu inovar e chamou o rapper KRS One para cantar na música. “Losing my religion” vem em seguida e se transformou no maior clássico do R.E.M. Na letra, um homem que se vê perdendo a fé e tentando lutar contra isto. Peter Buck faz um arranjo sensacional com bandolim, com riffs simples e ao mesmo tempo emocionantes. O videoclipe da música é um dos melhores feitos em todos os tempos, mudando a linguagem audiovisual dos vídeos musicais depois de seu lançamento. O vídeo foi influenciado pelas obras do pintor Caravaggio e pelo cineasta Andrei Tarkovsky. 



“Low” é música obscura, com uma percussão e climas estranhos, enquanto Michael Stipe canta com resignação e no final explode com raiva. “Near wild heaven” é cantada pelo baixista Mike Mills e tem um clima meio Birds, com dedilhados de guitarra que dão um clima de esperança e nostalgia. “Shiny happy people” foi outro grande sucesso do disco e tem a participação da vocalista do B52’s, Kate Pierson. A letra tem um tom meio irônico, pois o R.E.M. tinha sido criticado por fazer muitas músicas melancólicas, então fizeram esta falsa canção alegre como forma de deboche. 



“Half a world away” é uma daquelas canções tradicionais do R.E.M., emocionante, reflexiva e com poucos acordes. “Texarkarna” é cantada com propriedade pelo baixista Mike Mills, que mesmo tendo uma voz entranha e até mesmo “fanha” acaba transformando esta canção em uma das melhores do álbum. Destaque também para a ótima linha de baixo feita por Mills nesta canção. “Country feedback” é uma música triste com um slide guitar choroso e uma daquelas letras cantada/falada por Stipe. “Me in honey” fecha o disco com mais uma participação de Kate Pierson, em uma parceria que deu muito certo.


Out Of Time chegou ao topo da parada da revista Billboard e iniciou uma nova era dentro do cenário musical da época. O rock alternativo entrava de vez nas programações das rádios, deixando de lado o surrado hard rock feito nos Estados Unidos nos anos 80. O R.E.M. meio que rolou a bola para que o Nirvana com Nevermind aparecesse com tudo e mudasse de vez a indústria fonográfica no início dos anos 90. Out Of Time é um trabalho de uma banda em seu auge criativo e um dos melhores trabalhos do grupo, disco essencial para quem quer entender o que se passou no rock da década de 90.





8 de outubro de 2014

Top 10 Echo & The Bunnymen

O Echo & The Bunnymen foi formado em Liverpool em 1978 e sua formação original contava com Ian McCulloch nos vocais. Will Sargeant na guitarra, Les Patinson no baixo e Pete de Freitas na bateria. A banda teve muita influência de Velvet Underground, Beatles e The Doors em sua sonoridade. O nome da banda veio de uma bateria eletrônica usada no início de carreira pela banda, antes de ter um baterista de verdade.


Uma das bandas mais influentes do rock britânico dos anos 80, lançou discos clássicos, como Crocodiles de 1980, Heaven Up Here de 1981, Porcupine de 1983 e Ocean Rain de 1984. Os grandes destaques da banda sempre foram o guitarrista Will Sargeant com sua guitarra econômica e cheia de bons riffs e o vocal forte e grave de McCulloch e suas polêmicas declarações.

O baterista Pete de Freitas morreu em 1989 em um acidente e a banda continua até hoje, mesmo sem a pegada inicial, lançando este ano o disco Meteorites, somente com McCulloch e Sargeant da formação inicial. Vamos relembrar neste post 10 grandes momentos da carreira desta banda que é uma das melhores da Inglaterra em todos os tempos. 

“Do It Clean” (Do álbum Crocodiles de 1980)

Presente na versão americana do primeiro disco do Bunnymen tem toda energia e força da banda e ao vivo cresce ainda mais, uma das melhores canções dos shows do grupo. 



“Villiers Terrace” (Do álbum Crocodiles de 1980)

Toda energia pós-punk da banda está presente nesta canção, uma das melhores do disco de estreia do Bunnymen.



“All That Jazz” (Do álbum Crocodiles de 1980)

Um linha de baixo matadora e a bateria energética de Pete de Freitas conduzem a canção, uma das mais pulsantes do primeiro disco. 



“Show of Strenght” (Do álbum Heaven Up Here de 1981)

O riff matador de Will Sargeant mostra porque ele é um dos guitarristas mais influentes dos anos 80, que fez a cabeça de integrantes de bandas como Radiohead e Blur. 



“A Promise” (Do álbum Heaven Up Here de 1981)

Outro grande riff de Sargeant e um desempenho vocal atormentado e provocador de McCulloch criam uma das melhores canções do Echo. 



“The cutter” (Do álbum Porcupine de 1983)

O Bunnymen começava a refinar o seu som e nesta canção já percebemos o grupo fazendo um som mais grandioso, com influências da música oriental.



“The killing moon” (Do álbum Ocean Rain de 1984)

Um das mais belas canções de todos os tempos, tem uma letra poética e arranjos simples e discretos que engrandecem a música, uma das melhores interpretações de McCulloch nos vocais da banda. 



“Bring on the dancing horses” (Do álbum Songs to Learn & Sing de 1985)

Outra música com um riff simples, mas certeiro de Sargeant, uma das mais belas e emocionantes canções do Bunnymen. 



“Lips like sugar” (Do álbum Echo & The Bunnymen de 1987)

Maior clássico da carreira da banda com um refrão fantástico e mais um grande riff de Sargeant.



“It´s Alright” (Do álbum Flowers de 2001)

Da fase mais recente da banda, tem um teclado meio psicodélico, desta canção que é do melhor disco da fase pós anos 2000 do Echo. 





6 de outubro de 2014

Coletâneas e discos “tapa buraco” que valem muito a pena

Às vezes chega a hora na carreira de uma banda que é necessário lançar uma coletânea, seja de grandes sucessos e singles ou fazer um disco “tapa buraco” com músicas que não foram lançadas, sobras de estúdio etc... Em alguns casos estes discos podem ser verdadeiros fiascos, principalmente aqueles que têm sobras, pois geralmente tem canções bem inferiores aos que a banda tinha lançado. Neste post vamos relembrar algumas coletâneas e discos lançados às pressas que tem músicas tão boas que acabam se destacando na discografia das bandas.

Legião Urbana – Que País É Este? 1978/1987 (1987)


A Legião Urbana tinha estourado com o disco Dois de 1986 e era pressionada pela gravadora para lançar um novo trabalho. Como o grupo não tinha conseguido compor muitas músicas novas, o jeito foi aproveitar canções do começo de carreira que não tinham sido lançadas e músicas da antiga banda de Renato Russo, o Aborto Elétrico. Que País É Este? tinha uma sonoridade mais crua e punk, o que não agradou à crítica, mas os fãs ávidos por novas canções levaram algumas músicas do disco ao topo das paradas, como a épica “Faroeste Caboclo” e a música título. Mesmo sendo um disco feito às pressas, fez muito sucesso e é um dos preferidos de muitos fãs da Legião Urbana.





The Cure – Staring At The Sea – The Singles (1986)


Uma das melhores coletâneas já lançadas tem os singles lançados pelo The Cure de 1979 a 1986. A maioria das músicas tem nos álbuns oficiais da banda, outras como “Boys don´t cry”, “Jumping someone´s train” e “Charlotte Sometimes” só foram lançadas em single, não constando em nenhum disco de estúdio. Para aqueles que não querem ter todos os discos do The Cure, este álbum é um belo resumo do que há de melhor no som da banda.






 The Smiths – Louder Than Bombs (1987)


Coletânea de lados B de singles tem algumas das melhores músicas feitas pelo Smiths como “Ask”, “Panic” e “Heaven knows I´m miserable now”. Contendo 24 músicas e lançada na época em vinil duplo, acabou se tornando o último trabalho da banda.





 Nirvana – Incesticide (1992)


Após o sucesso mundial de Nevermind o Nirvana foi pressionado a lançar mais um disco em 1992. Para ter mais tempo para compor um novo álbum, a banda lançou em 92 a coletânea de B-sides, raridades e covers chamada Incesticide. Na capa, uma espécie de auto-retrato feito pelo próprio Kurt Cobain. Dentre os covers destacam-se a versão de “Turnaround” do Devo, “Molly´s lips” e “Son of a gun” dos Vaselines. Destaque também para faixa inicial “Dive”, uma versão punk de “Polly” e “Aneurysm”. Um disco que mostra um lado mais descontraído do Nirvana.





 Oasis – The Masterplan (1998)


Coletânea de lados B de singles dos três primeiros álbuns da banda. Destaque para as músicas “Talk tonight” e “Going nowhere” cantadas por Noel Gallagher e “Aquiesce”, uma das poucas canções em que os irmãos Gallagher dividem os vocais na mesma música. Há também um cover dos Beatles, “I am the walrus” em versão ao vivo.





2 de outubro de 2014

Cabeça Dinossauro – O melhor disco dos anos 80?

A banda paulistana Titãs já tinha dois discos de estúdio em 1986, Titãs de 1984 e Televisão de 1985. Discos irregulares que tinham boas músicas, mas ainda faltava uma unidade em termos de arranjos e direção musical, tanto que músicas como “Marvin”, “Go back” e “Querem meu sangue” ganharam novos arranjos e andamentos nos shows com o passar dos anos.


Um fato marcou definitivamente a história da banda em 1985: Arnaldo Antunes e Tony Belloto foram presos por porte de heroína. O Titãs a partir de então resolveu adotar em sua sonoridade uma postura mais punk e combativa, com letras contestadoras e fortes. A banda começava então a gravar seu terceiro disco de estúdio e pela primeira vez trabalhava com o maior produtor do Brasil na época: Liminha. Apesar dos desentendimentos iniciais, foi o início de uma parceria vencedora entre a banda e o produtor. 


Era o último disco do contrato da banda com a Warner, uma espécie de tudo ou nada, os álbuns anteriores não tinham atingido boas vendagens e a banda estava pressionada por um disco de sucesso. Cabeça Dinossauro foi gravado entre março e abril de 1986, no estúdio Nas Nuvens, de propriedade de Liminha. Para a capa, foi escolhida um esboço de uma obra de Leonardo da Vinci, “A expressão de um homem urrando” e na contracapa outro desenho de Da Vinci, “Cabeça grotesca”. O uso das obras foi cedido pelo Museu de Louvre da França.

A banda finalmente encontrava uma direção musical definitiva. Antes, nos álbuns anteriores, o grupo fazia uma mistura de new wave e MPB às vezes um tanto desconexa. O punk rock agora predominava no som do Titãs, com pitadas de funk e reggae. Uma sonoridade mais concisa e ainda sim variada, graças ao grande número de cabeças pensantes e criativas dentro da banda. 

A música de abertura, a tribal “Cabeça dinossauro” foi adaptada de um cerimonial da tribo Xingu intitulada “Cerimonial para afugentar os maus espíritos”. Com sua característica primal e percussiva é uma das aberturas mais fortes de um disco lançado no Brasil. A letra não faz tanto sentido e é um daquelas letras clássicas da banda influenciadas pelo concretismo. 

“AA UU” é uma canção primária e simples, que conquista o ouvinte logo de cara. Um desabafo contra a rotina e o tédio. Composta por Sérgio Britto e Marcelo Fromer, começou com os dois gritando na cozinha da casa de um deles, mostrando que as ideias mais simples são aquelas que podem dar mais certo. “Igreja” é a primeira música mais punk do disco, mostrando o descontentamento com a religião, a igreja e os dogmas. 





“Polícia”, composta por Tony Belloto, é claramente influenciada pelo episódio de sua prisão. Uma pedrada que critica o abuso policial e é obrigatória em qualquer show da banda. “Estado violência” foi composta por Charles Gavin na época que ele ainda era do Ira!. A música na época se chamava “Homem palestino” e tinha outra letra. Com o Titãs ganhou outra roupagem e letra, criticando a violência do Estado, com uma guitarra funkeada e ótima interpretação vocal de Paulo Miklos, o melhor cantor da banda.



“A face do destruidor” é uma vinheta caótica com ritmo desconexo, enquanto “Porrada” e “Tô cansado” são punks rápidos e diretos, com muita energia. “Bichos escrotos” é uma das mais antigas do Titãs, tanto que era tocada quando ainda eram um grupo performático de Teatro, quando estudavam no Colégio Equipe no começo dos anos 80 e tinha participação do antigo integrante da banda, Ciro Pessoa. Foi censurada na época pelo uso de palavrões na letra, resquícios da ditadura militar que há pouco tinha terminado no Brasil.

“Família” é o momento reggae do disco, uma letra que fala sobre o cotidiano de quase toda a família. “Homem primata” foi a música que mais tocou nas rádios e fala sobre o capitalismo. A canção inicialmente foi composta para ser gravada por Lulu Santos, mas o Titãs acabou aproveitando ela e esta virou um de seus maiores sucessos. 



“Dívidas” é sobre as contas que todos nós temos que quitar no decorrer da vida e o salário que nunca é suficiente, em um ciclo que parece interminável. “O que” encerra o disco e tem uma sonoridade bem diferente do restante do álbum. Aqui o som é bem funkeado com uso de bateria eletrônica e foi a canção que mais deu trabalho nas gravações. Esta canção abria novos horizontes e mostrava o som que o Titãs iria fazer em seu próximo disco, Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas, que tem um lado inteiro só com músicas neste estilo.

Cabeça Dinossauro é o disco de estúdio mais bem sucedido da carreira do Titãs e das treze músicas do disco somente “Dívidas” e “A face do destruidor” não tocaram na rádio. Finalmente o Titãs encontrava uma unidade musical em meio a tantas influências e fez seu melhor trabalho em todos os aspectos. É difícil afirmar que este seja o melhor disco de rock dos anos 80 em meio a tantos outros, mas com certeza foi o que melhor representou o momento político e social da época. Um trabalho essencial que sobreviveu muito bem com o passar do tempo.




29 de setembro de 2014

Dummy e o estranho mundo do Portishead

Realmente o ano de 1994 musicalmente foi um dos melhores da década de 90, vide a seção do blog “Grandes discos de 94”. Neste mesmo ano surgia uma banda de Bristol, Inglaterra, formada por Georf Barrow, Beth Gibbons e Adrian Utley. Dummy, primeiro disco do Portishead, foi lançado em Outubro de 1994, e redefinia um estilo que estava cada vez mais se destacando, o trip hop.


Formada em 1991 em um dos piores momentos econômicos da Inglaterra, a banda reunia elementos que até então nenhuma outra banda tinha feito com tanta propriedade: Música eletrônica, jazz, hip hop e um toque de filmes Noir. O grupo não chegou a criar o trip hop, pois artistas como Tricky e Massive Attack já faziam este tipo som antes, mas foi o Portishead com seu primeiro disco que conseguiu atingir um público maior, ganhando mais atenção da crítica e do público.

As grandes qualidades do Portishead se devem principalmente pelo “cabeça” da banda, o multi-instrumentista Georf Barrow, com seu grande conhecimento de música eletrônica, além de ser um bom guitarrista e da grande capacidade vocal de Beth Gibbons. Barrow afirma que leva as bases para Gibbons e a voz dela vai se moldando conforme o ritmo da música, como uma espécie de “camaleão” musical. 

A primeira canção do álbum, “Mysterions” tem um clima misterioso e efeitos fantasmagóricos, com grande desempenho vocal de Gibbons e competente guitarra de Barrow. “Sour times” foi o primeiro sucesso do Portishead com seu clima intimista e melancólico com uma guitarra surf de Barrow. A base da música foi feita em cima de uma trilha do filme Missão Impossível.



Em “Strangers”, Beth Gibbons canta notas agudas e graves com a mesma desenvoltura, em cima de uma base eletrônica com elementos de jazz. “It could be sweat” tem um clima doce e triste ao mesmo tempo, enquanto “Wondering star” tem scratches de hip hop, em uma das mais belas do disco. “It´s a fire” (que não aparece na versão do Reino Unido) tem arranjo com cordas e emociona, enquanto “Numb” tem um clima de clube esfumaçado e uma estranha percussão.

“Glory box” foi outro grande sucesso do álbum, com uma base que foi sampleada de uma música de Isaac Hayes, com uma interpretação sofrida de Gibbons, um solo distorcido de guitarra que dá um tom de estranheza e melancolia, com certeza uma das melhores músicas feitas pelo Portishead. “Glory box” sacramentou definitivamente o estilo da banda, surgindo até várias cópias por aí, como a banda Moloko, que fez certo sucesso nos anos 90. Destaque também para o clássico videoclipe da canção.


Dummy ganhou diversos prêmios de melhor disco de 1994 e em 95 ganhou o Mercury Prize, um dos mais importantes da Inglaterra. O Portishead criou neste primeiro trabalho um universo próprio, daqueles tipos de artistas que fazem um som único, como o Cocteau Twins, por exemplo. Um disco que redefiniu e popularizou um estilo e merece todo e qualquer tipo de homenagem.



24 de setembro de 2014

Péssimos discos de grandes bandas

A maioria das bandas de rock que lançam vários discos costuma derrapar algumas vezes. É difícil manter a qualidade do trabalho com mudanças de integrantes, brigas internas, abuso de drogas e crises criativas. Mesmo assim tem alguns artistas que exageram na dose e acabam lançando discos que viram bombas que nem o fã mais fanático consegue ouvir, se transformando em verdadeiros fracassos comerciais e de crítica. Neste post vamos lembrar alguns álbuns de grandes bandas que são ruins e um pouco da história de cada um.

Queen – Hot Space (1982)


O Queen lançava em 1982  seu décimo disco de estúdio, Hot Space e já era uma banda mais do que consagrada. Embalada pelo sucesso do disco anterior, The Game e do single “Another one bites the dust” o grupo mudou sua direção musical em Hot Space. O som agora era ainda mais pop e influenciado pela black music e pela disco, com uso de sintetizadores.

O disco até que tem bons momentos como “Back chat”, “Life is real” (em homenagem a John Lennon) e a ótima “Under pressure” em parceria com David Bowie. O restante do disco é bem abaixo do aquilo que uma grande banda como o Queen pode produzir, destaque (negativo) para a constrangedora “Las palavras de amor”. É considerado por muitos o pior trabalho do Queen. 






The Cult – The Cult (1994)


O Cult já tinha lançado discos clássicos como Love de 1985 e Eletric de 1987. Em 1994 a banda passava por uma entressafra e contava com dois novos integrantes no baixo e na bateria, permanecendo apenas o vocalista Ian Astbury e o guitarrista Billy Duff da formação original.

O disco autointitulado de 1994, o famoso “disco da cabra” é o trabalho mais fraco do Cult. Tentando fazer uma mistura de U2 (da fase Achtung Baby) com Simple Minds um pouco mais barulhento a banda não se sai bem. Só se salvam um pouco os singles “Coming down” e “Star” o restante é uma coleção de músicas fracas e sem criatividade. 





Guns n´Roses – Chinese Democracy


Na metade dos anos 90 o Guns n´Roses se desfez, o guitarrista Slash e os outros integrantes de desentenderam com o vocalista Axl Rose e saíram da banda. Axl afirmava sempre a que a banda não tinha acabado e que trabalhava em um novo trabalho do grupo com uma nova formação. O tal disco começou a ser produzido em 1996 e virou uma das maiores lendas da história do rock.

Todo ano Axl dizia que o dizia o álbum seria lançado e nada, até que em 2008 finalmente saiu a “obra prima” do novo Guns, Chinese Democracy. O tal esperado disco foi um verdadeiro fiasco e decepcionou até os fãs mais ardorosos. Uma coleção de músicas fracas e que não tinham nada a ver com aquele Hard Rock potente feito pela banda no início de carreira. 

Agora o Guns fazia uma mistura de Linkin Park com Nu Metal cheio de efeitos eletrônicos. Axl canta de forma irritante sendo difícil ouvir até o final esta porcaria. Prova que Slash e companhia é que eram os protagonistas do Guns e que fizeram muita falta neste trabalho sofrível de Axl Rose.





Metallica e Lou Reed – Lulu (2011)


A inusitada parceria entre o Metallica e Lou Reed começou na cerimonia do Rock ´n roll Hall of Fame de 2009. Depois do encontro ficou a intenção de gravar algo juntos, o que só aconteceu em 2011. Lou Reed estava começando a escrever uma peça chamada Lulu em 2009 e logo transformou esta ideia em um disco conceitual.

O que se escuta no disco Lulu é Reed cantando/recitando as letras enquanto o Metallica parece que toca meio que aleatoriamente. Às vezes a combinação parece que dá liga, mas na maioria do disco o que se ouve é uma sonoridade estranha e desconexa. Mesmo sabendo que se trata de um disco experimental é preciso ter coragem para ouvir este trabalho até o fim.




22 de setembro de 2014

O Concreto Já Rachou – Um disco cada vez mais atual

Quase trinta anos depois de seu lançamento, o disco da banda brasiliense Plebe Rude, O Concreto Já Rachou, continua com um discurso nas letras que combinam perfeitamente aos dias atuais, tanto na política como na indústria fonográfica. Aí vem a pergunta: Será que nada mudou? Ficamos estagnados ou a Plebe previu o futuro e fez uma música que seria sempre atual? É o que discutiremos neste post.


Formada em 1981, a Plebe Rude assinou contrato com a EMI em 1985 e lançou seu primeiro disco, na verdade um EP com 7 músicas e apenas 21 minutos de duração, chamado O Concreto Já Rachou. Mesmo tendo material para um disco completo a gravadora pelo visto preferiu lançar um álbum com poucas canções, com receio da receptividade do público. O álbum foi um sucesso, alcançando mais de 200 mil cópias vendidas, sendo o trabalho mais bem sucedido da banda.

Com Phillipe Seabra nas guitarras e vocais, Jander Billaphra nas guitarras e vocais, André X no baixo e Gutje Woortman na bateria, a Plebe na época fazia um som com muito influência de grupos como The Clash e PIL. O revezamento nos vocais e as letras politizadas e sem romantismo diferenciavam a banda dos seus contemporâneos da década de 80. 

Mesmo sendo pessoas com boa condição econômica e social, os integrantes mostravam neste disco em suas letras e ideologias, uma preocupação com situação do país. A desigualdade social, o abuso policial e os interesses mercantilistas das grandes gravadoras eram os alvos principais das letras da banda. As letras fortes misturadas com um sonoridade punk e ao mesmo tempo melodiosa  transformaram O Concreto Já Rachou em um dos discos mais clássicos do rock brasileiro.

A música de abertura “Até quando esperar” fala das injustiças sociais que ocorrem no Brasil. Uma canção que poderia soar datada, mas mesmo o país estar melhor economicamente do que na década de 80, o nível de pobreza ainda é muito grande. Na letra feita por Phillipe Seabra e André X, o grupo afirma que tem boas condições financeiras, mas isto não é motivo para esquecer o mundo ao redor, ao contrário de muitos ricaços e socialites que se fecham em seus pequenos mundos e parece viver em uma redoma de vidro. 



“Proteção” fala sobre a repressão e violência policial, resquícios ainda da ditadura militar, que em 1985 tinha terminado havia pouco tempo. Cada vez mais atual esta letra combina perfeitamente com os abusos da polícia militar, principalmente no Estado de São Paulo, que ocorrem com muita frequência hoje em dia: “A PM na rua nosso medo de viver / O consolo é que eles vão me proteger / A única pergunta é: me proteger do que? / Sou uma minoria mais pelo menos falo o que quero apesar repressão”.



 “Johnny Vai à Guerra” foi inspirada no livro de 1939 e filme de 1971 que foi traduzido no Brasil com este mesmo nome. Fala sobre um jovem que vai à guerra de forma forçada e se sente perdido em meio aquele conflito. Uma letra que podemos relacionar com as guerras que acontecem ainda hoje e os milhares de jovens que são recrutados e acabam morrendo na guerra.

“Minha renda” critica a ganância das grandes gravadoras na época que interferiam na sonoridade do artista, para que ele fosse cada vez mais comercial: “Um lá menor aqui, um coralzinho de fundo (fundo!) / Minha letra é muito forte? Se quiser eu a mudo / e tem que ter refrão (sim!) um refrão repetido (repetido!) / pra música vender, tem que ser accessível!”.

A música tem até uma homenagem a Herbert Vianna “Já sei o que fazer para ganhar muita grana / Vou mudar meu nome para Herbert Vianna”. Vianna acabou se tornando amigo da Plebe e produziu o disco O Concreto Já Rachou. A letra de “Minha renda” retrata muito bem a situação da música mundial. Os artistas estão cada vez mais artificiais e comerciais, sem atitude e fazendo música só para vender mesmo. No Brasil a situação parece ser ainda pior: Pseudo artistas, duplas que se dizem sertanejas fazendo música da pior qualidade, entre outras armações imperam nas paradas de sucesso nas rádios e na TV. 



"Sexo e Karatê" fala sobre o excesso de cenas de sexo e violência nos filmes e séries da TV da época. Isto pouco mudou nos dias atuais, podemos fazer até uma analogia que o Karatê da letra seria hoje em dia as tais lutas de MMA, uma espécie de “violência gratuita com regras”, que impera nas TVs e que geram milhões em dinheiro aos envolvidos. A música tem a participação de Fernanda Abreu nos vocais.

“Seu jogo” fala do jogo sujo que algumas pessoas são capazes de fazer. “Brasília” encerra o disco falando sobre uma cidade que foi criada para ser a capital do Brasil e acabou virando símbolo da inoperância e corrupção: “Capital da esperança / asas e eixos do Brasil / Longe do mar, da poluição / Mas um fim que ninguém previu”.

Com certeza as melhores obras são aquelas que são feitas para durar para sempre. Acho que nem os integrantes esperavam que 29 anos depois do lançamento de seu primeiro disco, as letras seriam tão verídicas e atuais. É difícil constatar que em alguns aspectos, nada mudou no Brasil em 29 anos e que estamos estagnados há muito tempo. Ponto para a Plebe Rude que diferente do rock brasileiro alienado atual (poucas bandas novas tem opiniões políticas em suas letras) soube analisar como poucas a situação caótica de nosso país. Não é a toa que O Concreto Já Rachou é um dos melhores discos feitos no país.