31 de agosto de 2015

Unknown Pleasures – Um disco definitivo

Em 1979 a banda pós-punk Joy Division lançava seu primeiro disco, Unknown Pleasures. O álbum foi gravado no Strawberry Studios em Stokport com a produção de Martin Hannet. O grupo optou em lançar o disco pela pequena gravadora Factory Records, mesmo tendo sido assediados por grandes corporações. A banda queria mais independência artística, ao contrário de bandas como o The Cure, que já estava em uma grande gravadora e já tinha que mudar sua direção musical (Aliás, o The Cure não ia muito com a cara do Joy Division, talvez por esta liberdade que o Cure não tinha).


A banda não tinha muito tempo e nem dinheiro por isto as gravações foram rápidas, sem muita enrolação e regravação de instrumentos. A capa do álbum virou um ícone do rock, trata-se de um gráfico de sinal de rádio captado por um telescópio. A ideia da capa foi do guitarrista Bernard Sumner e ela virou referência para muitos artistas, com sua arte minimalista e misteriosa.

“Disorder” abre o disco com um ritmo pulsante, com uma linha de baixo fantástica de Peter Hook e logo após entram os riffs de guitarras certeiros de Sumner. Na letra, Ian Curtis divaga sobre seus conflitos interiores: “Podem estas sensações me fazerem sentir os prazeres de um homem comum? / Estas sensações mal me mantêm interessado para outro dia / Eu peguei o espírito, perdi a sensibilidade, ignoro a surpresa”.



“Day of the lords” é lenta e arrastada, propositalmente e uma das mais pesadas do disco. O produtor Martin Hannet adicionou teclados na mixagem final a contragosto dos integrantes, mas o resultado final foi excelente, Peter Hook afirmou que Hannet estava certo, pois os teclados suavizam e melhoram a música.

Hannet reclamou durante as gravações que a banda ainda não tinha músicas suficientes para o álbum e forçou os integrantes a comporem mais duas músicas. Mesmo contrariados, o baterista Steve Morris e o baixista Peter Hook compuseram mais duas canções, que seriam “Candidate” e “From safety to where”, sendo que a segunda ficou de fora do álbum. O guitarrista Bernard Sumner não gostou de “Candidate” e gravou as guitarras com extrema má vontade com uma guitarra bem “econômica”. Mesmo considerando uma música não totalmente terminada, Hook afirma que ela é uma grande canção exatamente por isto.

“Insight” tem uma das linhas de baixo preferidas de Hook. Ao contrário das outras bandas, em que o baixista apenas segue as melodias da guitarra, no Joy Division era o contrário, as linhas de baixo eram feitas primeiro e a guitarra e os outros instrumentos deveriam seguir a linha de baixo. Outro destaque desta faixa é a bateria de Steve Morris, que mistura elementos acústicos e eletrônicos, um baterista que acabou desenvolvendo um novo estilo que influenciou muitos músicos.

“New dawn fades” é uma das melhores canções do Joy Division. Com um grande riff de guitarra e uma linha de baixo dilacerante, tem o fundo perfeito para a letra de Curtis, que fala sobre uma reflexão sobre o que talvez fosse a morte: “Oh, eu caminhei sobre a água, corri através do fogo / Parece que não consigo sentir mais / Era eu, esperando por mim / Esperando por algo mais / Eu, me vejo agora /Esperando por outra coisa”.



“She´s lost control” se tornou um dos maiores clássicos da banda. Isto se deve pelos experimentalismos feitos pela banda e pelo produtor Martin Hannet, transformando a canção em algo único e inovador. O som de um aerossol foi usado para criar alguns efeitos da bateria, além do uso de um sintetizador de bateria como um gerador de ruído branco, sendo Steve Morris um dos primeiros bateristas a usá-lo. Na letra, Ian Curtis fala sobre uma garota epilética que tem dificuldades de manter seu emprego e acaba morrendo durante um ataque. Uma letra totalmente autobiográfica, afinal Curtis sofreu até a morte com sua epilepsia.

Bernard Sumner queria que “Shadowplay” soasse como “The Ocean” do Velvet Underground. Uma música sombria e pulsante, que se tornou referência para o rock alternativo em geral. Sumner faz bons riffs de guitarra e segundo Hook, Sumner era um guitarrista subestimado às vezes, com grandes contribuições ao som do Joy Division. Na letra, Curtis fala sobre o submundo da sociedade, de forma ácida e sombria.



Sem falsa modéstia, Peter Hook fala que a linha de baixo de “Wilderness” é fantástica (e para variar, é mesmo) e é um ataque de Ian Curtis contra os dogmas da religião em forma de poesia. “Interzone” é o momento mais punk do álbum, com Hook fazendo os vocais principais e Curtis fazendo os backing vocals. Segundo Hook, Ian era legal neste aspecto, não tinha o ego inflado e deixava os outros integrantes cantarem se fosse necessário. O disco termina com a soturna “I remember nothing” com vários sons de vidros quebrados durante sua execução, outra ideia do produtor Martin Hannet.

Em Unknown Pleasures temos uma banda em seu auge criativo: um letrista fantástico como Ian Curtis, um baixista fenomenal como Peter Hook e instrumentistas que experimentavam ao máximo como Sumner e Morris, aliados a um grande produtor, que utilizou recursos inovadores de gravação como placas de eco e delays. Esta somatória de fatores transformou este álbum em algo único e definitivo dentro do rock, um dos discos mais influentes da história, sem dúvida alguma. 



21 de agosto de 2015

Dez anos do último disco de estúdio do Los Hermanos

Em 2005 saiu Quatro, último álbum de inéditas dos Los Hermanos. A banda após a turnê de divulgação deste disco anunciou um hiato em suas atividades, sem previsão de retorno. Desde então são esporádicos shows de reunião e discos solos lançados tanto por Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, deixando uma legião de fãs à espera de um novo trabalho de estúdio.


Os Los Hermanos apareceram para o grande público no final dos anos 90, com o grudento hit “Ana Júlia”. O grupo surgiu em uma lacuna surgida no rock brasileiro dos anos 90, que tinha bandas como o Raimundos, com suas letras sacanas e debochadas e o Planet Hemp, com seu discurso favorável à legalização da maconha. Faltava uma banda com um discurso mais poético, que desse vontade de pegar o encarte e dar uma lida nas letras. Foi aí que os Los Hermanos conseguiram achar uma brecha e conquistar o público.

Com seu primeiro disco lançado em 1999, com uma mistura de ska, hardcore e letras românticas, o grupo chegou ao topo das paradas e teve “Ana Júlia” regravada até mesmo por uma artista internacional, Jim Capaldi, que teve a participação do eterno Beatle George Harrison na guitarra. Começava ali uma relação de amor e ódio, uns adoravam o grupo, outros já começava a odiar, devido principalmente e melodia grudenta de seu maior hit.


Em 2001 veio a grande guinada na carreira dos quatro barbudos. Bloco do Eu Sozinho foi lançado e mostrou uma banda muito mais madura e com músicas muito mais experimentais do que o disco anterior. A gravadora estranhou muito a demo que a banda fez para este álbum, a mudança no estilo musical e quase não lançou o disco. Foi ai que se separou o joio do trigo, quem eram os fãs da moda por causa de “Ana Júlia” e quem realmente entendeu o trabalho da banda e passou a seguir o grupo a cada novo álbum.


Com um considerável número de fãs conquistados em 2003 saiu o melhor disco deles, na minha opinião: Ventura é uma coleção de canções cativantes, que alinhavam bons arranjos de metais com letras com nível poético um pouco acima da média do rock nacional da época. Músicas como “O vencedor”, “Cara estranho” e “Último romance” viraram pequenas pérolas do rock brasileiro do inicio dos anos 2000, conquistando um número maior de fãs, em sua maioria, universitárias de cursos de humanas, que suspiravam a cada sílaba dita por Camelo e cia.


Em 2005 saiu o derradeiro disco do Los Hermanos, 4. Um disco bem mais introspectivo, sem o tradicional uso de metais e um clima mais triste e melancólico. Desde então saiu apenas um álbum ao vivo em 2007 e nada de um novo lançamento. As carreiras colo de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante vão muito bem e os shows de reunião vão rendendo uma boa grana para a banda, afinal os caras tem muitas contas para pagar e é o trabalho deles, mas fica a sensação de um certo oportunismo, por que não lançar um novo trabalho então?

Talvez o fato de ter dois compositores na banda tenha acarretado em certo desgaste e competitividade entre os dois, afinal no primeiro disco eram 12 músicas de Marcelo Camelo e 2 de Amarante e no último vemos um equilíbrio, são 7 de Camelo e 5 de Rodrigo Amarante. Fica então a expectativa dos fãs de um dia os Los Hermanos se animem a gravar um trabalho com músicas inéditas, para o delírio dos fervorosos fãs e desespero dos tradicionais detratores do grupo. 


9 de agosto de 2015

Vímana – A banda mais famosa que ninguém ouviu

Imaginem uma banda com os seguintes integrantes: Ritchie, Lulu Santos, Lobão e o ex-tecladista do Yes, Patrick Moraz. Poderia ser considerada uma espécie de “dream team” do rock brasileiro, mas tantos egos juntos não poderiam dar certo e o Vímana não conseguiu ter uma carreira muito extensa.


Originalmente o grupo contava com Paulo Simas nos teclados e Candinho na bateria vindos da banda Módulo 1000, Lulu Santos na guitarra e vocais e Fernando Gama no baixo. Eles faziam apresentações e os quatro trabalhavam como músicos de estúdio para outros artistas. Com a saída de Cadinho em 1975, entram para a banda Ritchie e Lobão, tornando-se a formação mais conhecida do Vímana.

Com o sucesso das apresentações ao vivo a banda chamou a atenção da gravadora Som Livre e o grupo acabou gravando o compacto Zebra, que tinha no lado A a canção que dá título ao compacto e no lado B uma canção em inglês, chamada “Masquerade”. O Vímana chegou a gravar um disco completo com doze faixas, nunca lançado pela gravadora, que alegava que o público não estava preparado para o rock progressivo feito pelo grupo.


Ritchie disse que não sabe o destino das fitas masters com as gravações, mas suspeita que estejam no poder de Lulu Santos. Ele ainda alega que a banda na época era muito prepotente e que achavam que estavam mudando o mundo, mas na verdade estavam apenas mudando a vida deles. Ele, Lobão e Lulu moraram juntos por muito tempo e mantêm uma grande amizade até hoje, mas a disputa de egos era muito forte naqueles tempos entre os integrantes.

A coisa piorou quando o ex-tecladista do Yes, Patrick Moraz entrou para a banda no final dos anos 70, querendo fazer no Brasil uma versão tupiniquim do próprio Yes. Moraz, porém, odiava Lulu Santos e expulsou-o da banda, culminando com o fim do Vímana. Segundo as más línguas, um caso entre Lobão e a mulher de Moraz também contribuiu para o fim do grupo.


Ritchie costuma dizer que o Vímana é a banda mais famosa que ninguém ouviu. Uma banda que era promissora, com ideias interessantes, mas a dificuldade no relacionamento dos integrantes e a falta de interesse da gravadora culminaram com o seu fim. De qualquer forma foi o embrião de uma carreira de sucesso de artistas como Lobão, Lulu Santos e Ritchie, que nos anos 80 participaram de uma grande fase do pop rock brasileiro, algo que não se via desde os tempos da Jovem Guarda. 


26 de julho de 2015

Casais que marcaram época no rock

Hoje no blog vamos relembrar alguns relacionamentos que foram além do sentimento amoroso e que geraram inúmeros bons momentos musicais. Casais que além de construírem uma vida juntos terem filhos e etc. fizeram grandes canções que entraram para a história do rock. Alguns deles se desfizeram outros estão juntos firmes e fortes. Vamos rever algumas músicas que foram frutos destas parcerias.

John Lennon e Yoko Ono   


Em 20 de março de 1969 John Lennon e Yoko Ono se casavam e começava ali oficialmente a história do casal mais famoso da história do rock. Apesar de muitos relacionarem a união dos dois com o fim dos Beatles, foi uma das histórias de amor mais bonitas já conhecidas. A parceria musical dos dois também foi muito importante, começando pelo primeiro disco gravado por eles, o disco experimental Unifished Music Number 1 - Two Virgins de 1968, o famoso álbum em que eles aparecem em nu frontal na capa. O último trabalho lançado por eles foi o disco Double Fantasy de 1980, lançado pouco antes da trágica morte de John Lennon.



Poison Ivy e Lux Interior


Poison e Lux formaram em 1976 o The Cramps, banda que ficou famosa por ser uma das pioneiras a misturar rockabilly com o rock de garagem e o punk rock se tornando um das bandas mais lendários da cena underground de Nova Iorque fazendo parte da cena que tocou muito no clássico clube CBGB´s ao lado de bandas como Ramones e Blondie. O primeiro disco do Cramps foi lançado em 1980 e o último trabalho lançado em 2003. A união terminou infelizmente com o falecimento do vocalista e performer Lux Interior em 2009 por problemas cardíacos, culminando também com o fim do The Cramps e uma das parcerias mais incendiárias do rock.



Kim Gordon e Thurston Moore


O Sonic Youth é uma das bandas mais influentes do rock alternativo de todos os tempos. Seu fã mais ilustre era Kurt Cobain, que nunca escondeu que a banda era uma de suas preferidas e que os admirava muito. Kim e Thurston formaram o Sonic Youth em 1981 e foram 15 discos lançados e uma sonoridade que revolucionou o rock underground nos anos 80, abrindo portas para o boom do rock alternativo no início dos 90. Kim e Thurston se separaram em 2011 e a banda segue em hiato, sem previsão de novos lançamentos, mas sem dúvida foi uma das uniões mais importantes da história do rock. 



Rita Lee e Roberto de Carvalho


Após o fim de seu casamento com Arnaldo Baptista e sua saída dos Mutantes, Rita Lee começou uma vitoriosa carreira solo e no final dos 70 se casou com o guitarrista Roberto de Carvalho, começando uma parceria musical que resultou nos maiores sucessos comerciais da cantora. O primeiro disco da parceria, o álbum Rita Lee de 1979 foi um grande sucesso e teve hits como “Mania de você” e “Doce vampiro”. Com mais de 35 anos de união, os dois seguem firmes e fortes até hoje, sendo um dos casais mais bem sucedidos da música brasileira.



Jack e Meg White


Esse é sem dúvida o casal mais misterioso da história do rock. Quando estavam juntos no White Stripes, muito se especulava sobre a relação dos dois, uns diziam que os dois eram irmãos, outros falavam que eram só amigos. Após o término da banda, em 2011, descobriu-se que os dois foram casados de 1996 até 2000 e mesmo com o fim do casamento a parceria musical continuou por muitos anos. O White Stripes lançou seis discos de estúdio e foi uma das maiores bandas dos anos 2000. Depois do término do grupo, Jack White começou uma bem sucedida carreira solo, enquanto Meg acabou sumindo da mídia musical.



13 de julho de 2015

Muse aposta no peso e na temática forte em seu novo disco

No mês passado saiu o sétimo disco de estúdio da banda inglesa Muse. Drones é um álbum conceitual, que tem como tema as guerras modernas, os drones e os conflitos interiores de pessoas que hoje são facilmente manipuladas pelo sistema. Produzido por Robert Lange, tem como característica um maior peso nas guitarras do que os discos anteriores, lembrando um pouco os primeiros trabalhos do Muse.


“Dead inside”, música de abertura do disco, é uma típica faixa da banda: um eletro-rock com uma levada bem marcada de baixo. Uma das melhores faixas do disco tem belos toques eletrônicos e um belo desempenho vocal de Matt Bellamy, sem os tradicionais exageros que acompanham os vocais do líder do Muse.


“Psycho” tem uma introdução de um general e um soldado obedecendo a suas ordens, para se tornar um assassino frio e calculista. Com um riff blueseiro é uma das mais pesadas do disco e reforça o conceito de alienação e como alguns governantes e líderes transformam pessoas em psicopatas sociais.


“Mercy” é uma das mais pop do álbum e nas primeiras audições parece ser enjoativa, mas com o tempo se torna mais interessante, mas longe de ser a melhor música e mais criativa feita pela banda. “Reapers” é a melhor canção de Drones, pesada, com belos riffs e um refrão certeiro cheio de efeitos. Destaque também para o efeito de guitarra usado por Bellamy no solo.


“The handler” é uma das mais pesadas feitas pelo Muse, destaque para a interessante escala feita por Bellamy e a linha de baixo feita por Christopher Wolstenholme no meio da música. “Defector” tem uma introdução com um trecho de um discurso feito por John Kennedy nos anos 60 e aposta em riffs nervosos e um discurso contra a dominação ideológica e militar.

“Revolt” é uma canção que fala sobre se revoltar contra o que está estabelecido, com um refrão mais pop. “Aftermath” é uma bela balada com bons arranjos de guitarra e orquestração. “The globalist” é a canção mais extensa do Muse, com dez minutos de duração. A música fica um pouco entediante durante sua execução e poderia ter uns cinco minutos a menos que não fariam muita falta. O disco se encerra com um canto estilo música sacra do século 16 na canção que dá título ao álbum.

Se no disco anterior, The 2nd Law, o Muse atirava em várias direções, às vezes tentado soar como o Queen, o U2 e até mesmo Prince, apelando até para o Dubstep nas últimas faixas, em Drones a banda parece mais concisa e com uma sonoridade um pouco mais própria, com Bellamy não exagerando tanto em seus vocais.

O Muse pode não ser a salvação do rock, mas pelo menos investe em uma sonoridade mais básica e pesada e com uma temática séria em suas letras, ao contrário de muitas bandas da atualidade que não dizem nada em suas músicas. Além disto, são grandes instrumentistas que conseguem extrair arranjos interessantes, apesar de alguns exageros. Drones pode não ser considerado o melhor disco do trio, mas deve agradar em cheio os fãs da banda, porém, não vai ser com este álbum que o Muse vai conseguir mudar a opinião de seus detratores. 

1 de julho de 2015

Montage of Heck mostra a fragilidade de Kurt Cobain

Ontem assisti pela terceira vez ao documentário sobre a vida de Kurt Cobain, Montage of Heck, do diretor Brett Morgen. Este é o primeiro documentário com o suporte da viúva de Kurt, Courtney Love e a filha dele, Frances Bean Cobain. Com um vasto arquivo de áudio, imagens e obras de arte do líder do Nirvana, Morgen construiu um documentário que foge do lugar comum, misturando entrevistas e trechos de apresentações da banda com animações que às vezes mostravam partes dos diários e desenhos feitos por Kurt, e outras representavam trechos de sua vida em forma de desenho animado.


Morgen preferiu entrevistar somente as pessoas mais próximas da vida de Kurt, como os pais dele, sua madrasta, o seu amigo e companheiro de banda Krist Novoselic, sua irmã Kim, além de sua primeira namorada Tracy Marander e claro, a viúva Courtney Love. Não ficou muito bem explicada a ausência de entrevistas com Dave Grohl. Segundo o diretor, a entrevista dele foi feita depois que o filme já tinha sido terminado e que não daria tempo de colocar no documentário e também achou que a presença de Novoselic já era suficiente.

Logo de cara no filme, impressionam as imagens da infância de Kurt, mostrando uma criança linda e extremamente carismática. As imagens têm uma qualidade tão boa que parecem que são cenas feitas agora, com atores representando aquela época. No começo do filme, a mãe de Kurt fala que ele era hiperativo e que o médico receitou remédios para o garoto. Um grande erro que pode ter sido o começo de uma longa trajetória de dependência química do vocalista do Nirvana.

Outro fato crucial na vida de Cobain foi a separação dos pais, que tornaram Kurt um cara fechado e extremamente rebelde, mudando de casa em casa, morando com vários parentes até finalmente voltar contrariado a casa de sua mãe. Há também a parte musical do Nirvana, que é o mais importante, com apresentações ao vivo que mostram o quanto a banda era impactante, graças a sua batida forte, riffs de guitarras incríveis e o jeito forte e emocional de cantar de Kurt, mostrando uma visceralidade que poucas bandas na história do rock tiveram.  

O documentário também mostra vídeos pessoais de Kurt e Courtney, em momentos de descontração em casa (visivelmente chapados pelo uso de drogas), que chegam a ser engraçados e melancólicos ao mesmo tempo, mostrando um lado bem humorado e sarcástico de Kurt, que faz várias piadas com o Guns n´ Roses. Vídeos que mostram um casal apaixonado e perturbado ao mesmo tempo, revelando uma intimidade deles nunca antes mostrada.

As cenas de Kurt com sua filha ainda bebê são emocionantes e chegam a dar aquele aperto no coração, mostrando um homem com muito afeto e amor pela filha. Uma das cenas finais, que mostram um Kurt mal conseguindo ficar de pé e levando bronca de Courtney por estar drogado em frente de sua filha, são muito chocantes, mostrando como Kurt estava chegando ao fundo do poço.

Após o filme ainda passa uma entrevista com o diretor do documentário, Brett Morgen, em que ele fala que se inspirou no filme The Wall do Pink Floyd e como ficou obcecado pelo artista Kurt Cobain, após ter acesso ao material que usaria no filme. Seu envolvimento foi tão grande que ele se sentia mais próximo de Kurt estes últimos anos do que de seus próprios amigos.

Em Montage of Heck, vemos um artista ambicioso e ao mesmo tempo sensível às críticas, aos problemas estomacais, às responsabilidades e ao sucesso. Mas nada mesmo o afetou tanto quanto seu vício em heroína. Infelizmente era uma tragédia anunciada, Kurt não conseguiu vencer o vício, graças a sua fragilidade física e psíquica. Um artista que tinha uma arte muito genuína e sincera e que teve um fim repentino e trágico, mas que deixou sua marca e foi um dos últimos suspiros do rock. 


22 de junho de 2015

Johnny Marr ao vivo em São Paulo – Resenha

Ontem em São Paulo, aconteceu mais uma edição do Festival Cultura Inglesa, no Memorial da América Latina. O Festival teve como atrações os ingleses do The Strypes, a “cantora” de tecnobrega Gaby Amarantos e a atração principal, claro, foi o ex-guitarrista do Smiths, Johnny Marr.


Não cheguei a assistir ao show do Strypes, que parece ser uma banda interessante, mas peguei a parte final da performance de Amarantos, que destruiu clássicos dos anos 80, como “Sweet dreams” do Eurythmics, “Blue Monday” do New Order e “Suedehead” do Morrissey, em versões tecnobregas, com a voz forçada de Amarantos. Que tal ano que vem chamarem uma banda de rock nova brasileira para participar, para dar uma força ao combalido rock nacional? Fica a dica.

Pontualmente às 19 horas, o lendário guitarrista do Smiths entrou no palco e abriu o show com “Playland”, faixa de seu bom segundo disco solo, de mesmo nome, lançado em 2014. O som estava bem equalizado e apesar da recepção um pouco fria da plateia, que estava mais interessada em ouvir canções do Smiths, já demonstrava que seria um grande show e que ainda é um dos melhores guitarristas em atividade.

O público se animou um pouco mais com a primeira canção do Smiths que foi tocada, “Panic”. Marr tocou fielmente ao arranjo original e ainda mostrou que canta muito bem, nesta canção que pertence ao disco Louder Than Bombs de 1987. O show foi pegando força gradualmente com a sequência “The right thing right” de seu primeiro disco solo, The Messenger, de 2013 e a dançante “Easy money” de seu segundo disco.

Apesar da falta de interesse da maioria do público com as músicas de seu trabalho solo, Marr demonstrou que as canções são de muita qualidade, principalmente ao vivo, graças a sua boa banda de apoio e é claro, aos belos arranjos de guitarra de Marr. Depois de “25 hours” e “New town velocity” veio o segundo clássico do Smiths na noite. A guitarra hipnótica de “Headmaster ritual” me levou ao delírio, em uma das minhas canções preferidas da banda, que tem uma letra que fala sobre uma pessoa que sofre abusos em uma escola. 

Em “Bigmouth strikes again” o público parece ter acordado de vez, cantando junto um dos maiores clássicos do Smiths, tocado com emoção e fidelidade ao original por Marr. “Getting away with it”, canção do Eletronic, projeto que Johnny participou no começo dos anos 90 com Bernard Sumner do New Order também emocionou bastante, relembrando uma grande fase do pop rock mundial.

Para encerrar o show antes do bis, a bela e emocionante, “There´s a light that never goes out”, cantado em uníssono pelo público, nesta canção que pertence ao clássico disco The Queen is Dead de 1986. Marr e sua banda saíram do palco já com o público na mão, a espera de mais canções do Smiths.

Logo na volta para o Bis, Marr mandou “Stop if you think that you´ve heard this one before” para levantar o público de vez, nesta música que fez parte do último disco de estúdio do Smiths, Strangeways Here We Come de 1987. Depois veio “Upstars” de seu primeiro disco solo e uma sensacional cover de “I feel you” do Depeche Mode. Para encerrar com maestria, a tão esperada “How soon is now” com sua letra emocionante que fala de solidão e timidez , que ganha muita força graças aos efeitos de guitarra usados por Marr, em uma das canções mais emblemáticas dos anos 80.

Com este show, Johnny Marr mostrou porque é um dos artistas mais influentes e importantes do rock mundial. Se Morrissey sempre foi o coração do Smiths, Marr sempre foi a alma, com suas melodias e harmonias perfeitas e sua competente guitarra. Um artista que não vive apenas do passado e mostra que tem novas canções muito consistentes e que ainda vai produzir muita música de qualidade.


Setlist:

Playland
Panic
(The Smiths song)
The Right Thing Right
Easy Money
25 Hours
New Town Velocity
The Headmaster Ritual
(The Smiths song)
Back in the Box
The Messenger
Generate! Generate!
Bigmouth Strikes Again
(The Smiths song)
Candidate
Getting Away with It
(Electronic song)
There Is a Light That Never Goes Out
(The Smiths song)

Encore:

Stop Me If You Think You've Heard This One Before
(The Smiths song)
Upstarts
I Feel You
(Depeche Mode cover)
How Soon Is Now?
(The Smiths song)